15/05/2026

Fraudes fiscais no Rio: como o estado virou epicentro das investigações da PF que apuram desvios bilionários

Fonte: O Globo
O Rio de Janeiro se tornou o principal epicentro das investigações contra o grupo
Refit, conglomerado do setor de combustíveis comandado pelo empresário
Ricardo Magro. Da histórica Refinaria de Manguinhos aos condomínios de luxo
da Barra da Tijuca, passando por operações ligadas à lavagem de dinheiro, evasão
de divisas e suspeitas de conexão com organizações criminosas, o estado
concentra o núcleo de uma das maiores ofensivas fiscais e financeiras já realizadas
no país.
A nova etapa dessa escalada ocorreu nesta sexta-feira, quando a Polícia Federal
deflagrou a Operação Sem Refino. A ação teve como um dos alvos o exgovernador
Cláudio Castro, alvo de mandados de busca e apreensão em um
condomínio na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio.
A operação também mira Ricardo Magro, que teve a prisão preventiva decretada
e o nome incluído na Difusão Vermelha da Interpol. Segundo os investigadores,
o grupo é suspeito de ocultação patrimonial, dissimulação de bens e evasão de
recursos para o exterior.
Ao todo, a Justiça determinou o bloqueio de cerca de R$ 52 bilhões em ativos
financeiros e autorizou a suspensão das atividades econômicas de empresas
investigadas. Mas a ofensiva desta sexta é o capítulo mais recente de uma
sequência de operações que vêm ampliando o cerco sobre o grupo desde 2025.
Refinaria histórica virou centro das investigações
Fundada em 1954, a Refinaria de Manguinhos ocupa há décadas um espaço
simbólico na indústria do Rio de Janeiro. Localizada na Zona Norte da capital
fluminense, ela se tornou uma das estruturas mais tradicionais do setor de
combustíveis no estado. Nos últimos anos, porém, o nome da refinaria passou a
aparecer associado a investigações de fraude tributária, lavagem de dinheiro e
estruturas financeiras usadas para blindagem patrimonial.
Em 2025, a foi alvo da Operação Carbono Oculto, conduzida pela PF com apoio
da Receita Federal e de órgãos estaduais. Na ocasião, a Agência Nacional do
Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis chegou a interditar parcialmente as
operações da unidade.
As investigações apontavam suspeitas de importação irregular de combustíveis,
adulteração tributária e utilização de estruturas empresariais para reduzir
artificialmente impostos.
No início do ano, em janeiro, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e
Biocombustíveis (ANP) determinou a interdição total da Refit, antiga refinaria de
Manguinhos, que já operava sob restrições desde 2025 , quando parte das
atividades havia sido suspensa. A agência disse que a medida foi resultado da
análise de informações e documentos coletados pela ANP, in loco, além de
análise da documentação enviada posteriormente pela empresa.
União acusou grupo de operar 'no vermelho'
Em outubro de 2025, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional endureceu o
discurso contra a Refit em manifestação enviada ao Tribunal de Justiça do Rio. O
órgão acusou o grupo de importar gasolina praticamente pronta enquanto
declarava óleo bruto às autoridades aduaneiras — prática que, segundo os
procuradores, poderia configurar falsidade ideológica e crime tributário.
No documento, a PGFN sustentou que o conglomerado se mantinha ativo por
meio de sonegação fiscal sistemática e manobras contábeis. A União ainda
afirmou que empresas ligadas à refinaria operavam como escudo patrimonial
para ocultar ativos e dificultar cobranças judiciais. Os procuradores defenderam
que permitir a retomada plena das operações da refinaria representaria risco à
arrecadação do estado do Rio e à concorrência no setor de combustíveis.
Megaoperação revelou estrutura bilionária
Poucas semanas depois, em novembro de 2025, uma nova ofensiva ampliou
ainda mais a dimensão do caso. Batizada de Poço de Lobato, a operação
mobilizou mais de 600 agentes públicos em cinco estados e no Distrito Federal.
Segundo o Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal, o grupo teria
causado prejuízos estimados em mais de R$ 26 bilhões em débitos tributários.
As investigações apontaram uma estrutura empresarial considerada sofisticada,
baseada em distribuidoras, importadoras, fundos de investimento, offshores e
empresas interpostas. Segundo as autoridades, o grupo movimentou mais de R$
70 bilhões em apenas um ano.
Os investigadores afirmam que parte da engrenagem financeira utilizava
empresas abertas em Delaware, nos Estados Unidos, além de fundos com cotistas
únicos e operações financeiras desenhadas para dificultar o rastreamento dos
recursos.
Durante a operação, agentes apreenderam dinheiro em espécie, documentos,
equipamentos eletrônicos e pedras preciosas.
Combustível, lavagem e crime organizado
A nova operação desta sexta aprofunda outra linha considerada estratégica pelos
investigadores: a possível conexão entre o setor de combustíveis e organizações
criminosas que atuam no Rio de Janeiro.
Segundo a PF, a Operação Sem Refino está inserida nas apurações ligadas à
chamada ADPF das Favelas, investigação que acompanha conexões entre agentes
públicos, fluxos financeiros e estruturas do crime organizado.
Nos bastidores das investigações, o caso passou a ser tratado como exemplo de
“crime do andar de cima”, envolvendo esquemas empresariais sofisticados, uso
de estruturas internacionais e impacto bilionário na arrecadação pública.
A suspeita das autoridades é que parte do sistema investigado funcionasse como
uma engrenagem permanente de evasão tributária e ocultação patrimonial,
utilizando desde postos de combustíveis até fundos financeiros e operações
internacionais.
A Refit nega irregularidades e afirma que os débitos tributários discutidos pelas
autoridades são alvo de disputas judiciais legítimas.